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novembro 10, 2017 Nenhum Comentário

A ECONOMIA CIRCULAR por Christian du Tertre

A economia circular se define como uma tentativa de se desvincular do aspecto linear da economia industrial, que explora cada vez mais os recursos naturais não renováveis do planeta e gera mais e mais resíduos nocivos ao meio ambiente, à biodiversidade e à camada de ozônio. A economia circular se origina da prática de algumas empresas industriais que consiste em fazer dos resíduos de umas recursos de outras, prática tradicionalmente referida como fazendo parte da ecologia industrial.

Essas abordagens surgidas em uma primeira eetapa (etapa EC.0) são muito antigas. Os historiadores as detectaram já no século XIX, e até antes, desde o surgimento das proto-indústrias. Mas o recente interesse dos observadores e analistas por essas práticas é que elas têm um impacto positivo no meio ambiente. Elas permitem conciliar as abordagens econômicas clássicas das empresas com questões ecológicas. Nesta perspectiva, a proximidade geográfica das empresas aparece como uma alavanca, o que explica o interesse das autoridades locais por essas abordagens. Além disso, o desenvolvimento da cooperação entre empresas industriais no mesmo território aumenta a atratividade deste território e reduz o risco de nomadismo das empresas, atraídas por promessas de incentivos financeiros de outros territórios que se apresentam como concorrentes.

A economia circular vai se desenvolver, em um segundo momento, como uma perspectiva que possibilita a gestão inteligente de resíduos com base na reciclagem. Esta última pode se constituir em linhas de força de um novo aprovisionamento sustentável em “recursos secundários”, possibilitando usos repetidos da matéria. Os especialistas consideram que este é o primeiro estágio real da economia circular (estágio EC.1). A reutilização, após a recuperação, leva as empresas a reconsiderar seu sistema de produção e a realizar novas despesas e investimentos em design ecológico e, mais amplamente, em Avaliação do Ciclo de Vida (ACV).

Nesta configuração, se a economia industrial linear se preocupa com o valor agregado associado às diferentes etapas da transformação da matéria, a economia circular se preocupará com o valor de uso preservado. Isso leva os gestores a concentrar sua atenção na gestão de estoques de materiais que podem ser usados várias vezes, enquanto a abordagem industrial clássica está preocupada com a gestão dos fluxos, favorecendo a redução de estoques, especialmente os intermediários, e de materiais em processo, a fim de reduzir custos financeiros correspondentes ao capital imobilizado. Essas dinâmicas aumentam o interesse nas relações de proximidade geográfica entre atores, enquanto a economia industrial linear se interessa na otimização da cadeia de valor em escala internacional. Com efeito, a globalização oferece oportunidades para a concorrência de sistemas sociais que oferecem custos de mão de obra diferenciados, mais do que compensando os custos adicionais de transporte, independentemente da modalidade utilizada.

Em uma perspectiva dinâmica, esta primeira etapa da economia circular tem seus limites. Primeiro, a redução do uso da matéria e o desenvolvimento de recursos secundários entram em contradição com o coração da economia industrial: rentabilidade baseada no crescimento do volume. Além disso, o questionamento somente do aspecto linear do modelo industrial deixa de lado o peso das finanças na governança das empresas, impedindo reconsiderar os fundamentos da lucratividade.

Mais ainda, a evolução dos usos e dos estilos de vida não sendo considerada, a abordagem da economia circular, nesta fase 1, permanece marcada por uma concepção industrial, ela mesma sujeita:

– a um efeito de retroação no caso de mercados não saturados: a redução do custo unitário dos bens levando ao crescimento de sua demanda;

– a um efeito de recessão no caso de mercados saturados: a reutilização da matéria reduzindo gradualmente o volume das atividades de transformação da matéria; a concorrência de empresas que desejam aumentar sua participação de mercado levando ao desaparecimento de algumas dentre elas.

Também deve-se notar que a etapa EC.1 da economia circular diz respeito apenas a certas categorias de assalariados, aqueles cujo trabalho está envolvido em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). Para aqueles envolvidos em um trabalho de concepção, EC.1 pode trazer um novo sentido ao trabalho, mas para aqueles confinados em tarefas 3 de execução, EC.1 não traz nenhuma inovação. Seu trabalho permanece inscrito numa perspectiva taylorista, uma gestão centrada na realização de objetivos mensuráveis, desconectada do trabalho real e de seu reconhecimento.

Também deve-se notar que esta etapa da economia circular, ao revisar apenas certos aspectos do modelo econômico industrial das empresas, cria uma nova vulnerabilidade dos territórios. Assim, um industrial que decide fechar uma unidade em um território onde o EC.1 é desenvolvido coloca todas as outras empresas industriais do território em perigo. O aumento dos custos, para as outras empresas, em consequência da saída dessa empresa do território, pode ser considerável. A resiliência do território é assim enfraquecida. Finalmente, em nível macroeconômico, o decrescimento causado pela economia circular não é compensado pelo desenvolvimento de outras atividades,  especialmente de atividades de serviço.

Em vista de todos esses limites, a ADEME (Agência de Gestão do Meio Ambiente e Energia, francesa) apresentou uma abordagem da economia circular tentando conectá-la à economia da funcionalidade, esta última sendo responsável por fornecer respostas em termos de uso e estilo de vida. A EC.2 torna-se, então, um dos componentes da economia da funcionalidade ou, inversamente, a economia da funcionalidade é considerada como um dos componentes da economia circular. Esta articulação dos dois modelos é atualmente debatida sem que situações reais de territórios ou de empresas mostrem, ainda, com base em experiências, as condições de sua operacionalização e seu sucesso.

Bibliografia

Collectif (2015), Dossier : Le pari de l’économie circulaire, Alternatives Economiques n° 349, juillet, p. 50-60.

ADEME/ARF, (2014), Guide méthodologique du développement des stratégies régionales d’économie circulaire en France, Publication Ademe.

Adrian Deboutière, Laurent Georgeault, (2015), Quel potentiel d’emplois pour une économie circulaire ? Institut de l’économie circ

Tradução e revisão técnica de Francisco de Paula Antunes Lima

Universidade Paris VII/LADYSS; ATEMIS.

Foto:  Polê GreenWin

 

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